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''Ele não se moveu um centímetro.
Ele está olhando para mim através da fumaça, do outro lado da cerca. Seu cabelo é uma coroa de folhas, de espinhos, de chamas.

Seus olhos estão brilhando com a luz, mais iluminados do que todas as luzes em todas as cidades em todo o mundo, mais iluminados do que jamais conseguimos inventar se nós tivéssemos dez mil bilhões de anos.

Ele nunca tira os olhos de cima de mim''.

— Onde estão suas lágrimas? 
— Lágrimas? 
— Como pode um anjo não ter lágrimas? Dirá-me então que não possui asas?
— Estás fugindo das próprias respostas. Está morta. 
— A condolência não existe entre o Céu e a Terra? 
— Não há como lhe explicar.
— Anjos deveriam chorar.
— O céu também é um inferno. Um ou dois abismos, se você souber o que fazer.
— Posso fazer uma pergunta?
— Já a fez.
— É. 
— O céu já está repleto delas. Não precisam das minhas acumuladas.
— Lágrimas?
— Não seria essa sua pergunta?  
— Talvez.
— Anjos não sangram, se o fizessem, tudo o que você conhece, acredita e ama, sucumbiria.
— És egocêntrico.
— Anjos não tem lágrimas porque seria um desperdício. Assim como a morte, a vida tem que possuir uma salvação.  
— Sofres calado, dizes. 
— Sofro com a mesma intensidade que choras. O céu também pode ser um inferno, eu lhe disse. 
— O céu já está repleto delas, disse-me. 
— O céu é formado por estrelas e lágrimas. Elas brilham em um milhão de anos.
— O peso do mundo tem um milhão de anos?
— A história que carregas nos lábios tem quantos anos você quer que tenha.  
— O tempo é relativo deste lado do Universo?
— O tempo é abstrato. Se quiseres, ele poderá ser você.
— Não sofres?
— Acredita somente em coisas que vê?
— Anjos também mentem. 
— Não todos.
— Você suporta meus lamentos.
— Nós também podemos ser um magnífico inferno. O paraíso é formado por extremos.

Anelize Nunes em ”O céu também é um inferno”.

Você não me toca mas eu te sinto

Das coisas que nós deveríamos ter sido, restou apenas uma trilha sonora barata. Você é apenas o resquício de uma angustia infinita e duma aliança rompida. Eu evito cruzar a estrada, mas meus pés deslizam, percorrendo o perímetro proibido. E às vezes desenterro nossas breves memórias, embora isso arruíne minh’alma. Mas você é apenas uma sombra deformada de alguém que eu deveria ter conhecido. Você não me toca mas eu te sinto. As folhas das árvores que você pintou enquanto meu mundo ainda permanecia seguro secaram como o outono. E suas lembranças são presas medonhas de que eu continuo escapando. As estrelas me salvaram. E minha ignorância sob teus passos é o que tem me mantido viva todo esse tempo.

Nós somos inviáveis e você encontra-se tão seco e distorcido como um cadáver. Está condenado como as pedras que chocam-se diariamente com as ondas raivosas. As flores que outrora lhe faziam companhia foram mastigadas e cuspidas. Mas o ácido nos meus lábios ainda não poderiam ser comparado aos gemidos que escapavam sibilantes e agudos. Você está apodrecendo no âmago das minhas feridas.

Você está morto.

                                                                           -

                                    I spent so many years learning how to survive
                                                              Now I’m writing
                                               Just to let you know I’m still alive

                                                                            -

Anelize Nunes

Se a solidão tivesse voz, gritaria por seu nome

As lacunas da tua ausência se alastram como um câncer por todos os órgãos. Fazendo minha pele branca tornar-se um amarelo pálido, como as cortinas de uma antiga casa abandonada. A escuridão rompe o lacre da sanidade e as lágrimas vazam dos meus ossos, mãos e olhos. Como se tudo estivesse partindo-se em mil moléculas e reintegrando-se somente para lamber outra veia e infectar outra célula.

A intensidade que nós vivemos é facilmente comparada com a velocidade em que a luz voa. E as pequenas flores que brotam no nosso jardim, murcham-se em pouco tempo e falecem sob meus pés, secas e vermelhas. O espetáculo em que eu bailava nos seus olhos agora é turvo como se eu estivesse observando uma velha foto num vidro sujo. Você segue sem cautela, pisando nos calos e rombos. O teu rastro é um perfume enjoativamente doce que embrulha o estômago e que outrora, eu inalava sem qualquer prudência. Nós vivamos num universo instantâneo, veloz e sem coerência. Éramos dois jovens deslumbrados e nossa bagagem sempre fora nossa esperança.

Agora guardo apenas a saudade do tempo em que nós sonhávamos sob as estrelas e o nosso limite era apenas a borda do horizonte enquanto o sol tocava o solo verde. Dos nossos tempos de criança é que eu tenho as melhores lembranças. Crescer nos fez ficar com expressões duras e sonhos rígidos, e as manias dessas pessoas de chumbo que você tanto zombava agora é você quem utiliza. Tua estrada é apenas pontos de fogo vivo onde todas os bilhetes de amor que lhe enviei transformaram-se em cinzas e poeira.

Você perdeu o encanto em descobrir o que se esconde atrás do meu silêncio bruto, frio e angustiado. Perdeu o interesse em me embalar em noites de inverno ou sussurrar poemas de um livro empoeirado da terceira fileira da estante, onde eu, mesmo na ponta dos pés, não alcanço. Teus olhos guardam um fosco negro, como um poço infinito e obscuro. E teus dedos que antes deslizavam suaves pela minha coluna agora enrijecem-se ao menor toque das minhas mãos frias. Você aprendeu a temer a dor e isso nos direciona à todos os finais trágicos de grandes histórias de amor. Se a escuridão possuísse olhos, estaria olhando na sua direção.

Se a solidão tivesse voz, gritaria por seu nome à meia noite. O vento sopra alto na nossa direção, mas você finge não perceber seus gemidos melancólicos e evita meus olhos úmidos. Você está de pé ao meu lado firme, forte e duro, esculpido maravilhosamente em granito. E eu poderia citar mil canções e recitar as poesias que você deliciava-se em escutar, atento. Mas agora você cantarola uma música desconhecida em uma batida descompassada e por uma fração de segundos imagino as batidas do meu coração sufocadas por todos os dias de silêncio e expectativas mutiladas.

Seus olhos não são mais dum líquido derretido, agora são seguros. Distantes. Nós éramos resistentes e agora somos dois pontos flutuando em órbitas que jamais se encontram. Eu grito pelo seu nome em silêncio quando você resolve que é hora de encontrar com os meus olhos. E você apenas balança a cabeça e um cristal escorre por sua bochecha.

Eu amo você”. É apenas o que escuto de seu sussurro engasgado.

Agora é minha vez de acolher o silêncio.

Anelize Nunes

Morrer é a única forma de sobreviver em você.

Em dias como esse quero apenas secar como folhas de outono. A intensidade com que o mundo vibra faz estremecer e balançar meus alicerces. Cada centímetro farto, converte-se em poucos grãos de areia. 

E eu choro solitária porque ninguém suporta tamanha estranheza. Eu choro só porque é bonito sofrer por algo. Mesmo que nem eu mesma saiba pelo que sofro e me desfaço. As mesmas escalas e as mesmas cores em tons tristes correm soltas, bailando a minha volta. Soprando uma vida tão antiga, quanto as canções que lembram seu nome. 

Não há limites e não há nada que nos impeça de tentar mas nós podemos ouvir o tic-tac incansável do relógio pendurado na sala, como uma bomba relógio. Regredindo e transformando nossos dias em pequenas lembranças. Até o êxtase de dias gloriosos se esvai como cristais rolando ladeira abaixo. Evaporam e escapam. Nós somos apaixonados pela lacuna mas a solidão nos acolhe simpática com olhos de vidro, traiçoeira. E eu tremo. 

Minha consciência prematura em ler as linhas do nosso futuro é o que faz com que o som das tuas palavras fique distorcido. Existe somente ruídos e interferência, como se estivéssemos em outra estação: sem sintonia, sem ritmo, sem história. Nossa juventude passa como um vulto e a sensação desconfortável de que estamos jogando os minutos pela janela me agridem. Nós nunca sabemos quando é cedo ou tarde demais. 

Mesmo se o que nos restar for silêncio e nós finalizarmos enfim nossa peça teatral, aceito. Eu vou deixar você com nossa trilha sonora e você vai sair pela porta com um ”até logo” nos lábios e os olhos sangrando. Podemos sentir o declínio, com suas bagagens volumosas e seus lábios rachados. Nós estamos sofrendo pela rapidez que as pessoas seguem, um tanto frívolas e com uma carga a mais no coração. Mas nós carregamos aflições distintas. Você sofre com os pontos finais. E eu agonizo como um pássaro sem asas, por seus olhos vazios e suas paredes intransponíveis. E percebo que é exatamente neste instante que todos escapam e escorrem: quando a última gota de angústia é filtrada da corrente sanguínea.

Quando de novo estivermos vivas é que o nosso adeus concretiza. No mesmo breve instante - que abrange uma eternidade - em que a dormência desaparece do nosso corpo. O sofrimento é a única certeza de que ainda estamos conectadas. 

E eu a amo, enquanto estou morta. 

Anelize Nunes.

"E só então percebi que estava diante de uma criatura cheia de delicadeza e carinho. Que se traia sem se dar conta. Ao mesmo tempo que se encolhia numa mistura de insensatez e incoerência. Uma verdadeira preciosidade. Uma jóia, linda e espiritual. Talvez algum homem, uma coisa qualquer, um dia a destruísse para sempre. Fiquei torcendo para que não fosse eu." - Bukowski em ”A mais linda mulher da cidade em Crônica de um amor louco”.

Grandes mudanças começam com pequenos baques. Um sorriso que começa com o repuxar dos lábios numa curva assimétrica, um passo em direção ao futuro ou um passo retrocedendo e modificando o passado - se o mesmo pode sofrer mutações. E apenas uma palavra prega-se nas minhas veias, como o roçar dos teus braços nas curvas do meu corpo. É tarde demais para a cura. É muito tarde para sermos salvos do veneno que corre no nosso sangue, tão denso como teus olhos âmbar refletidos no luar. Substancial o suficiente para não haver duvidas, fictício e desolado demais para acreditarmos ser benéfico. 

Todas as partes do meu corpo gritavam como um alarme de incêndio para manter distância. Todas as letras miúdas que corriam paralelas à minha visão indicavam palavras chaves como: Perigo. Mantenha-se afastado. Porém não houve qualquer movimento. Apenas um arrepio semelhante à um choque elétrico que percorre a espinha e congela no dorso. E todo o temor em sermos descobertos, a fuga imediata, o som estridente que sai das caixas de som altas, cessam num segundo. No mesmo instante em que uma pergunta é respondida com uma palavra proíba. E permanece. Fixa e espessa no ar como um bote salva vidas: Sim.

Sim. Sim. Sim.

Então, estamos dançando.

E a Terra muda de rota. A neblina encobre outro amanhecer, e enquanto todas as pessoas respiram e caminham com suas vidas pregadas em calendários imutáveis, a ansiedade em saber que teus pulmões exercem a função corretamente fazem com que meus pés deslizem sob o chão. Escorregadios e inseguros. O mundo pode explodir em cores, e nós somos capazes de nos transformar em fios de seda por essas ruas vazias, e ninguém notaria. Os prédios intermediários, as pessoas frívolas, os carros fantasmas no acostamento, as paredes úmidas: tudo fétido, antisséptico, plastificado e morto. Simétrico e perfeito como tudo o que é concreto. Impecável como todos os tantos objetos que são empurrados pela gravidade e são inanimados. Consentindo com insanidades humanas.

Nós não tínhamos escolha. Nós jamais tivemos o direito de escolher as curvas e as retas. Eu pude sentir a atmosfera e a resistência do ar sob meu corpo quando dançamos a quinze metros de onde o livre arbítrio sorriu-me pela primeira vez. Agora nós somos como pássaros sem rumo, atravessando dois infinitos azuis e a estática. Ágeis e velozes como não é permitido ser. Amantes infectados pela única doença que é capaz de salvar seres humanos do abismo da inexistência absoluta. Assim como a luz que escapa das folhas numa mata onde tudo o que prevalece é a selvageria.

Flores também nascem de pedregulhos, como a chuva precipita-se embora o sol esteja no ápice. A luz infiltra-se nas frestas, nos becos onde a esperança prevalece fraca e pálida. O delírio impregna-se na corrente sanguínea de tons que variam entre dourado e castanho, condensando-se e desfazendo-se em líquido. Sobrevive em palavras proíbas e canções esquecidas. Nos homens dum romantismo arcaico e até mesmo nos poemas que foram lambidos por chamas avermelhadas. Triunfa no limite do oceano, nas beiradas, roendo a fúria aos poucos. Prevalece na liberdade que baila quando nossos olhares encontram-se. Conservando-se em cinza.

E quando tudo enfim cala-se, nós sentimos somente a solidificação do delírio. O calor denso que suga nossa alma, fazendo com que as bátidas tornem-se fortes e rápidas. Nossos poros sendo invadidos e alimentados por pequenos choques elétricos que assemelham-se tanto a estímulo de vida. E todos nossas promessas que falecem na ponta dos nossos dedos. Nós nos amamos livremente. Então, dançamos.
As estrelas brilham magníficas e inalcançáveis, assim como nós. Consentem cúmplices, aprovando o sigilo da noite. E assim que falecerem, com um último suspiro, eternizarão o contato dos nossos corpos como imagens antigas em molduras de madeira repletas de pó.

Sim. Nós somos livres.

Anelize Nunes em ”Sacrifício”.

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