Grandes mudanças começam com pequenos baques. Um sorriso que começa com o repuxar dos lábios numa curva assimétrica, um passo em direção ao futuro ou um passo retrocedendo e modificando o passado - se o mesmo pode sofrer mutações. E apenas uma palavra prega-se nas minhas veias, como o roçar dos teus braços nas curvas do meu corpo. É tarde demais para a cura. É muito tarde para sermos salvos do veneno que corre no nosso sangue, tão denso como teus olhos âmbar refletidos no luar. Substancial o suficiente para não haver duvidas, fictício e desolado demais para acreditarmos ser benéfico.
Todas as partes do meu corpo gritavam como um alarme de incêndio para manter distância. Todas as letras miúdas que corriam paralelas à minha visão indicavam palavras chaves como: Perigo. Mantenha-se afastado. Porém não houve qualquer movimento. Apenas um arrepio semelhante à um choque elétrico que percorre a espinha e congela no dorso. E todo o temor em sermos descobertos, a fuga imediata, o som estridente que sai das caixas de som altas, cessam num segundo. No mesmo instante em que uma pergunta é respondida com uma palavra proíba. E permanece. Fixa e espessa no ar como um bote salva vidas: Sim.
Sim. Sim. Sim.
Então, estamos dançando.
E a Terra muda de rota. A neblina encobre outro amanhecer, e enquanto todas as pessoas respiram e caminham com suas vidas pregadas em calendários imutáveis, a ansiedade em saber que teus pulmões exercem a função corretamente fazem com que meus pés deslizem sob o chão. Escorregadios e inseguros. O mundo pode explodir em cores, e nós somos capazes de nos transformar em fios de seda por essas ruas vazias, e ninguém notaria. Os prédios intermediários, as pessoas frívolas, os carros fantasmas no acostamento, as paredes úmidas: tudo fétido, antisséptico, plastificado e morto. Simétrico e perfeito como tudo o que é concreto. Impecável como todos os tantos objetos que são empurrados pela gravidade e são inanimados. Consentindo com insanidades humanas.
Nós não tínhamos escolha. Nós jamais tivemos o direito de escolher as curvas e as retas. Eu pude sentir a atmosfera e a resistência do ar sob meu corpo quando dançamos a quinze metros de onde o livre arbítrio sorriu-me pela primeira vez. Agora nós somos como pássaros sem rumo, atravessando dois infinitos azuis e a estática. Ágeis e velozes como não é permitido ser. Amantes infectados pela única doença que é capaz de salvar seres humanos do abismo da inexistência absoluta. Assim como a luz que escapa das folhas numa mata onde tudo o que prevalece é a selvageria.
Flores também nascem de pedregulhos, como a chuva precipita-se embora o sol esteja no ápice. A luz infiltra-se nas frestas, nos becos onde a esperança prevalece fraca e pálida. O delírio impregna-se na corrente sanguínea de tons que variam entre dourado e castanho, condensando-se e desfazendo-se em líquido. Sobrevive em palavras proíbas e canções esquecidas. Nos homens dum romantismo arcaico e até mesmo nos poemas que foram lambidos por chamas avermelhadas. Triunfa no limite do oceano, nas beiradas, roendo a fúria aos poucos. Prevalece na liberdade que baila quando nossos olhares encontram-se. Conservando-se em cinza.
E quando tudo enfim cala-se, nós sentimos somente a solidificação do delírio. O calor denso que suga nossa alma, fazendo com que as bátidas tornem-se fortes e rápidas. Nossos poros sendo invadidos e alimentados por pequenos choques elétricos que assemelham-se tanto a estímulo de vida. E todos nossas promessas que falecem na ponta dos nossos dedos. Nós nos amamos livremente. Então, dançamos.
As estrelas brilham magníficas e inalcançáveis, assim como nós. Consentem cúmplices, aprovando o sigilo da noite. E assim que falecerem, com um último suspiro, eternizarão o contato dos nossos corpos como imagens antigas em molduras de madeira repletas de pó.
Sim. Nós somos livres.
Anelize Nunes em ”Sacrifício”.